Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

O mundo se encontra aqui

O mundo se encontra aqui

A multidão inquieta se movia incansável de um lado a outro do grande salão, vozes roucas e agudas ao contar estórias se perdiam com as risadas.  Sempre estórias de castelos e monstros, casas mal assombrada e desbravamentos da infância.

Eu poderia ficar a noite toda apenas a ouvir aquelas estórias, e era o que muito fazia. Indo embora somente quando podia ver o azul escuro do céu se transformar em rosa e dourado enquanto a luz banhava as montanhas e fazia dos orvalhos pequenas gotas de cristais que enfeitavam o gramado.

Na sala ao fim do corredor, podiam-se ver as sombras na parede iluminadas pela luz de velas. E enquanto esperava o chiar da chaleira, observava o fogo crepitar em cores que me faziam viajar para longe.

De repente, o rapaz com olhos de coruja começou a servir champagne. E a menina de cabelos loiros encaracolados sorria de maneira cômica, encantada com as estrelas que apenas os adultos podiam tocar.

Foto retirada da internet(http://cantinhomaisum.files.wordpress.com/2009/09/escrever.jpg)

Haviam tantas pessoas de diferentes lugares naquele salão que os sotaques se perdiam, e, mesmo sem bebericar algo, você corria o risco de ficar tonto.
O mexicano da voz rasgada oferecia os famosos Tacos, e creio que ninguém ousou recusá-lo. O italiano convencido argumentava que nenhuma culinária do mundo poderia ser comparada com a de seu país. Todos o ignoraram, visto sua presunção.

O senhor de boina e camisa listrada, não parava um só segundo. Falava alto, sorria, sussurrava. Às vezes parecia contar um segredo, outrora, gargalhava alto o suficiente para que o mundo escutasse sua risada. Todos queriam saber como aquele senhor de olhos d’água conseguiu viajar o mundo vendendo doces. Era a história de sua vida. E eu me perguntava se todas as palavras que ele deixava flutuar no ar gélido da sala, derrotando monstros, decifrando códigos, voando com dragões e viajando no tempo eram mesmo reais. Eu queria que fossem.

Quando os primeiros raios de sol alcançaram a antiga vidraça do salão, o homem curvado chegou discreto. Ao som de Creedence, anuncia:

- As maravilhas do mundo: Chocolates

Por: Bruna Maria 

E agora José?

CRÔNICA

E agora, José?

Por: Bruna Souza

2006: O novo mês mostrava sua face como quem chega de mansinho. Sem barulho, sem estardalhaços. O frio era o único que insistia em bater na porta, ansioso pela recepção. Quase, um convidado ilustre para os moradores da casa.

Meu pai e meu tio tomavam o mesmo café amargo pingado de leite de sempre, marca registrada de seus encontros. Eu, naquela época com dez anos, estirada no tapete da sala, apenas ouvia, sem pretensão, a conversa dos dois. “Diretas Já”, disse meu tio. “Lembra-se de nós naquela época?”, “Como vou esquecer? Naquela época eu ainda tinha cabelo”, respondeu entre risos. “Nós ajudamos a mudar o país”, completou. Nesse momento, as pessoas em forma de graveto que rabiscava não mais me interessavam. “Como assim? Meu pai e meu tio mudaram o país?”. Minha atenção redobrou, absorvia com entusiasmo as palavras que flutuavam no ar gélido da sala. “E os caras pintadas?” indagou meu tio, com um sorriso que já começava a acentuar suas rugas. “Nem me fale”, retrucou meu pai com o mesmo sorriso. “Saímos às ruas, pedimos um país melhor”. “País melhor”, repeti baixinho. “Nós fizemos história”, disseram em coro. “Fizemos história”, balbuciei.

2016: Menos 20 graus lá fora. Há tantas pessoas no vagão no qual me encontro que o ar gélido nem faz tanta diferença quanto gostaria.

O assunto ao meu redor não poderia ser outro: Política. Essa palavra de oito letras e quatro sílabas que antes vinha acompanhada de “eu não gosto”, hoje é pronunciada em demasia. Seja na roda de amigos em um bar, seja na escola, igreja, calçada. Seja na TV, rádio ou espaço. Seja no trem, como agora.

A moça de pé com a voz rasgada na minha frente diz: “Viu só o que ela fez? Ela afundou a Petrobrás”. “E o que o Moro fez? Vazar a conversa dos dois por puro alarde?”, retruca o senhor ao meu lado. “E a nomeação de Lula pra ministro? Ninguém “tá” acima da lei não”, se intromete o rapaz com olhos de coruja. Eu apenas ouço, calada, o que nesse momento transforma-se em gritaria. “Benditos coxinhas” grita alguém do fundo. “Olha só quem fala seu Petralha”. “No PT só tem ladrão” diz a moça da voz rasgada. Sua voz quase não é ouvida em meio a tantas vozes de “eu estou certo e você errado”.

O rapaz com olhos de coruja persiste. O senhor ao meu lado fala sozinho: “Há quanto tempo o PSDB “tá” no governo de São Paulo? O que eles fizeram? Nada! Nada!”.

Continuo a ouvir, calada. A cada estação o número de pessoas só aumenta, me sinto encurralada em meio tanto estardalhaços.

O moço de cabelos preto, com a barba por fazer sentado ao meu lado sorri. Quase, como um ato de cumplicidade. E para minha surpresa, ele pergunta: “E agora, José?”, “E agora, você?”, pergunto enquanto levanto. Minha estação é a próxima.