CRÔNICA
E agora, José?
Por: Bruna Souza
2006: O novo mês mostrava sua face como quem chega de mansinho. Sem barulho, sem estardalhaços. O frio era o único que insistia em bater na porta, ansioso pela recepção. Quase, um convidado ilustre para os moradores da casa.
Meu pai e meu tio tomavam o mesmo café amargo pingado de leite de sempre, marca registrada de seus encontros. Eu, naquela época com dez anos, estirada no tapete da sala, apenas ouvia, sem pretensão, a conversa dos dois. “Diretas Já”, disse meu tio. “Lembra-se de nós naquela época?”, “Como vou esquecer? Naquela época eu ainda tinha cabelo”, respondeu entre risos. “Nós ajudamos a mudar o país”, completou. Nesse momento, as pessoas em forma de graveto que rabiscava não mais me interessavam. “Como assim? Meu pai e meu tio mudaram o país?”. Minha atenção redobrou, absorvia com entusiasmo as palavras que flutuavam no ar gélido da sala. “E os caras pintadas?” indagou meu tio, com um sorriso que já começava a acentuar suas rugas. “Nem me fale”, retrucou meu pai com o mesmo sorriso. “Saímos às ruas, pedimos um país melhor”. “País melhor”, repeti baixinho. “Nós fizemos história”, disseram em coro. “Fizemos história”, balbuciei.
2016: Menos 20 graus lá fora. Há tantas pessoas no vagão no qual me encontro que o ar gélido nem faz tanta diferença quanto gostaria.
O assunto ao meu redor não poderia ser outro: Política. Essa palavra de oito letras e quatro sílabas que antes vinha acompanhada de “eu não gosto”, hoje é pronunciada em demasia. Seja na roda de amigos em um bar, seja na escola, igreja, calçada. Seja na TV, rádio ou espaço. Seja no trem, como agora.
A moça de pé com a voz rasgada na minha frente diz: “Viu só o que ela fez? Ela afundou a Petrobrás”. “E o que o Moro fez? Vazar a conversa dos dois por puro alarde?”, retruca o senhor ao meu lado. “E a nomeação de Lula pra ministro? Ninguém “tá” acima da lei não”, se intromete o rapaz com olhos de coruja. Eu apenas ouço, calada, o que nesse momento transforma-se em gritaria. “Benditos coxinhas” grita alguém do fundo. “Olha só quem fala seu Petralha”. “No PT só tem ladrão” diz a moça da voz rasgada. Sua voz quase não é ouvida em meio a tantas vozes de “eu estou certo e você errado”.
O rapaz com olhos de coruja persiste. O senhor ao meu lado fala sozinho: “Há quanto tempo o PSDB “tá” no governo de São Paulo? O que eles fizeram? Nada! Nada!”.
Continuo a ouvir, calada. A cada estação o número de pessoas só aumenta, me sinto encurralada em meio tanto estardalhaços.
O moço de cabelos preto, com a barba por fazer sentado ao meu lado sorri. Quase, como um ato de cumplicidade. E para minha surpresa, ele pergunta: “E agora, José?”, “E agora, você?”, pergunto enquanto levanto. Minha estação é a próxima.
Meu pai e meu tio tomavam o mesmo café amargo pingado de leite de sempre, marca registrada de seus encontros. Eu, naquela época com dez anos, estirada no tapete da sala, apenas ouvia, sem pretensão, a conversa dos dois. “Diretas Já”, disse meu tio. “Lembra-se de nós naquela época?”, “Como vou esquecer? Naquela época eu ainda tinha cabelo”, respondeu entre risos. “Nós ajudamos a mudar o país”, completou. Nesse momento, as pessoas em forma de graveto que rabiscava não mais me interessavam. “Como assim? Meu pai e meu tio mudaram o país?”. Minha atenção redobrou, absorvia com entusiasmo as palavras que flutuavam no ar gélido da sala. “E os caras pintadas?” indagou meu tio, com um sorriso que já começava a acentuar suas rugas. “Nem me fale”, retrucou meu pai com o mesmo sorriso. “Saímos às ruas, pedimos um país melhor”. “País melhor”, repeti baixinho. “Nós fizemos história”, disseram em coro. “Fizemos história”, balbuciei.
2016: Menos 20 graus lá fora. Há tantas pessoas no vagão no qual me encontro que o ar gélido nem faz tanta diferença quanto gostaria.
O assunto ao meu redor não poderia ser outro: Política. Essa palavra de oito letras e quatro sílabas que antes vinha acompanhada de “eu não gosto”, hoje é pronunciada em demasia. Seja na roda de amigos em um bar, seja na escola, igreja, calçada. Seja na TV, rádio ou espaço. Seja no trem, como agora.
A moça de pé com a voz rasgada na minha frente diz: “Viu só o que ela fez? Ela afundou a Petrobrás”. “E o que o Moro fez? Vazar a conversa dos dois por puro alarde?”, retruca o senhor ao meu lado. “E a nomeação de Lula pra ministro? Ninguém “tá” acima da lei não”, se intromete o rapaz com olhos de coruja. Eu apenas ouço, calada, o que nesse momento transforma-se em gritaria. “Benditos coxinhas” grita alguém do fundo. “Olha só quem fala seu Petralha”. “No PT só tem ladrão” diz a moça da voz rasgada. Sua voz quase não é ouvida em meio a tantas vozes de “eu estou certo e você errado”.
O rapaz com olhos de coruja persiste. O senhor ao meu lado fala sozinho: “Há quanto tempo o PSDB “tá” no governo de São Paulo? O que eles fizeram? Nada! Nada!”.
Continuo a ouvir, calada. A cada estação o número de pessoas só aumenta, me sinto encurralada em meio tanto estardalhaços.
O moço de cabelos preto, com a barba por fazer sentado ao meu lado sorri. Quase, como um ato de cumplicidade. E para minha surpresa, ele pergunta: “E agora, José?”, “E agora, você?”, pergunto enquanto levanto. Minha estação é a próxima.

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