Ritual fúnebre celebra a vida

Ritual fúnebre celebra a vida


 Danças, cantos, plumagem e pinturas. É assim o processo de funeral que a tribo Bororo executa no rito de celebração da vitória da vida sobre a morte.

Conhecidos por seus rituais como a “Festa do Milho” ou “Perfuração de orelhas e lábios”, a tribo Bororo habita o planalto central do estado do Mato Grosso, distribuído em espaços demarcados: Jarudore, Meruji, Tadarimana, Tereza Cristina e Perigara.

Com uma população de cerca de 2000 indivíduos, o funeral é o mais longo de todos os rituais Bororo, tal pode durar aproximadamente três meses. Os Bororos acreditam que quando uma pessoa morre sua alma (“Aroe” em sua língua nativa) passa a habitar animais como: onça pintada e onça parda. O corpo morto é então enterrado em uma cova rasa no centro do pátio da aldeia e regado diariamente para acelerar o processo de decomposição. Durante esse período “grandes rituais são realizados”. Segundo Sylvia Caiuby Novaes, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo e estudiosa da tribo Bororo há mais de trinta anos, “Os funerais constituem também momentos muito especiais para essa sociedade, momento de forte expressão estética, seja por meio de cantos, danças ou ornamentos”.

Representante do morto dança no centro
 do pátio da Aldeia Fonte:
 Sylvia Caiuby Novaes
Um membro da aldeia é escolhido para representar o morto. Seu corpo é então recoberto por plumagem e pinturas, sua face coberta com palha para que mulheres e crianças não o reconheçam quando dançar, pois este não é mais apenas um homem da aldeia e sim “Aroe”, ser evoluído que se “apresenta ao mundo dos vivos”.

Entre as várias tarefas do representante, esta a de caçar um felino para que o couro possa ser entregue à família do morto. Os Bororo creem que a “caçada desse animal assegura a vingança do morto”, diz Novaes.
Todos os pertences do morto deverão ser destruídos e seus ossos lavados em um rio. O representante deve pinta-los e coloca-los em um cesto que deverá ser entregue à família. Os ossos são, enfim, colocados em uma bandeja de palha que deverá ser carregadas por parentes ao som de “choros”.

Um cantor experiente evoca a alma do finado e todos os mortos para ajuda-lo a entrar na aldeia dos mortos.

O cesto com ossos é costurado junto a mechas de cabelos de parentes falecidos. Levado de casa em casa, depois de alguns dias será definitivamente enterrado.

Mesmo convivendo com o “homem branco” há quase 400 anos, a tribo Bororo continua suas tradições de maneira intacta, em ritos que mantém vivo seus valores e crenças. É nós funerais que são evocados as almas de antepassados e heróis. É neste ritual que são reafirmados os valores desta sociedade e onde o “luto indica a vitória da vida sobre a morte”.

Por: Bruna Maria
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